Especial Mães: Ninguém merece

Depoimento de Elis Soares

Parabéns, você merece. Essa é uma frase muito ouvida quando contamos uma notícia sobre promoção no trabalho, aquisição de bens e, no caso das mulheres, quando elas contam que estão grávidas. Foi o que aconteceu comigo nestes últimos meses.

No momento, estou com 38 semanas completas de minha primeira gestação, prestes a dar a luz um menino, Rafael. Essa é minha segunda vez como mãe de primeira viagem. Já tenho um filho adotivo, João Victor, de 7 anos. Depois de uma espera de 30 meses, por meio de processo legal de adoção via fórum, nosso encontro foi há três. Recebi-o em minha casa com 4 anos e 10 meses.

E aí, você pode estar se perguntando (em pensamento, com vergonha de me questionar). Por que adoção? E acho que nem eu sei bem explicar. Durante minha vida toda convivi com amigos e primos, e até meu esposo, adotivos. E sempre gostei da ideia. Tinha um bem querer gratuito em relação ao tema. Decidimos topar a proposta mental, aquele sopro divino, e a surpresa, só agora consigo analisar, é que treino é treino, e jogo e jogo. Você só realiza mesmo a adoção (ainda mais tardia) quando ela acontece. Até hoje ainda me pego em situações inimagináveis nas quais não faço a menor ideia do que fazer.

E aí, você pode estar se perguntando (em pensamento, com vergonha de me questionar), do que se trata agora esse corpo grávido? E acho que nem eu sei bem explicar. Eu não evito filhos desde que entrei na fila de adoção, em 2012. Quando menstruei pela primeira vez, aos 11 anos, fui diagnosticada com ovários policísticos e, segundo minha médica na época, o melhor a se fazer era já iniciar o uso de anticoncepcionais para que quando eu quisesse engravidar tivesse mais chances de sucesso. Entre intervalos sem medicação e ultrassons de rotina (para conferir se os cistos cresciam), resolvi que não tomaria mais aqueles contraceptivos, queria mesmo é deixar com Deus ou com a natureza, ou com o universo, pra quem preferir, a decisão sobre uma fecundação em mim.

Outros médicos me receitaram tratamentos: tomei medicações estimulantes para ovulação por seis meses, em seguida deveria fazer cirurgia ou inseminação artificial (não quis). Outra médica me receitou progesterona (tomei por 3 anos), alegando que eu tinha baixa do hormônio. Foi então que em 2017, um doutor ousou me propor, “pare de tomar tudo isso, vamos observar como seu corpo se comporta estando livre”.

E assim, concebi, apenas 7 meses depois de alforriada da dependência farmacológica arrastada por 22 anos. Claro que os costumeiros atrasos menstruais ocasionados pelos cistos me impediram de desconfiar da gravidez. Só me submeti ao exame de farmácia, por insistência do marido, quando já estava com 7 semanas de gestação.

Choque! A palavra define meu estado quando vi os dois risquinhos coloridos de rosa no “palitinho de papel”. Na verdade, ainda fiquei assim mais umas semanas. E, no fundo, ainda me sinto anestesiada até agora. Eu realmente não esperava esperar!

As pessoas dizem que a gente merece essas coisas. Eu já pensei assim, já tive aquela ideia de que nós somos merecimento. Mas esse charme do mundo tem me botado certa desconfiança quanto a essa consciência coletiva.

Pensemos no sol, ele nasce todos os dias, pra quem merece e para quem não merece. Quando vamos à praia ou às montanhas, tudo aquilo está lá para quem merece e para quem não merece. As flores se abrem, os pássaros cantam e todos podem admirá-las e ouvi-los, merecendo-os ou não.

Pelo menos sobre filhos, só posso acreditar que é exatamente assim, ninguém os merece!

Para todas as mães, para aquelas que serão ou nunca serão, para a minha mãe e para meus filhos.

 

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Autor Redação Mães de Jundiaí

Redação Mães de Jundiaí

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