Mães de UTI são fortaleza diante da fragilidade

Depois de parir, o maior desejo de uma mãe é poder voltar para casa com o seu filho nos braços para o início de uma nova vida. Mas para Daiala, Lorielle e Raquel a realidade foi outra. Seus bebês nasceram prematuros e necessitaram de assistência médica mais intensa. Hoje, quando se celebra o Dia Mundial da Prematuridade, o Portal Mães de Jundiaí presta uma homenagem para todas as mães de UTI por meio do relato delas.

Lorielle com o filho Lorenzo
Imagem: Arquivo Pessoal

A história de Lorielle França e seu filho Lorenzo, hoje com 4 anos, começou em 2015 quando ela descobriu a gravidez. Sem nenhuma intercorrência durante o pré-natal, a data prevista para o parto era dia 16 de fevereiro de 2016, mas a bolsa estourou no dia 1 de janeiro com 33 semanas de gestação.

“Eu fiquei desesperada, porque não era a hora ainda. Fui para o hospital apenas com a carteirinha de convênio e meu RG, não tinha nem lavado as roupinhas dele”, conta a mãe. Segundo Lorielle, ao chegar no hospital a médica disse que eles seriam transferidos para Campinas, porque se o bebê nascesse com problemas respiratórios não teria UTI para ele ficar, já que os leitos estavam todos ocupados.

Transferida para Campinas, conseguiram segurar o parto do Lorenzo por dois dias e no dia 3 ele veio ao mundo. Sem nenhum problema, mas precisou ficar na UTI para aprender a mamar e usou sonda para se alimentar nesse período. Lorielle teve alta dois dias depois, mas Lorenzo precisou ficar por 8 dias na UTI. Ela e o marido iam para Campinas todos os dias. “Mesmo com dores por conta da cesárea, pegávamos a estrada todos os dias para ver meu filho, ficava no hospital das 8h às 21h e entrava de duas em duas horas para dar o peito e ve-lo”, afirma.

Ainda assim, a sensação de chegar em casa sem o filho foi uma das piores experiências, segundo Lorielle. “Eu olhava para o berço e via ele vazio, me dava uma tristeza”, lembra. “Aprendi que a gente pode até planejar as coisas, mas é Deus que decide”.

Raquel com seus filhos: Liam, Eliza e Sarah
Imagem: Arquivo Pessoal

Se a angústia é grande com um filho, imagine quando dois bebês vão direto para UTI Neo? Assim aconteceu com Raquel Baston Leite, mãe das gêmeas Sarah e Eliza, hoje com 2 anos.

Elas nasceram com 34+5 semanas e foram direto para a UTI por dificuldades respiratórias, mas não precisaram ser entubadas. Segundo Raquel, Eliza estava com percentil abaixo de 3 (restrição de crescimento) e teve um pequeno vasodilatação cerebral, então a ginecologista optou por uma cesárea de emergência. “No parto foi tudo tão rápido que nem consegui tirar foto com a Eliza, por exemplo”.

Três dias após o nascimento das meninas, Raquel voltou para casa, sem elas. Apesar de no dia seguinte voltar para o hospital e se internar novamente, porque Sarah havia saído da UTI, ela precisou passar uma noite inteira sem as filhas em casa. “Eu chorei desde a hora que tive alta até voltar para o hospital no dia seguinte”, lembra. “É muito dolorido ir embora e deixar aqueles pacotinhos no hospital, a gente se sente culpada, mesmo não sendo”.

Depois que internou novamente, Raquel só saiu de lá quando as duas bebês tiveram alta, no dia 16 de outubro. Ela é mãe também do Liam, hoje com 7 anos. Com ele o parto foi tranquilo e dentro da normalidade, ele nasceu de 38 semanas. “Nossa vida é uma caixinha de surpresas, por isso temos que aproveitar e curtir cada segundo, porque não sabemos como será o próximo, além disso, temos que agradecer sempre”, diz.

Daiala com Anthony e Vinícius
Imagem: Arquivo Pessoal

E quando os três filhos nascem prematuros? Essa experiência foi vivida por Daiala Barros, mãe do Arthur, Anthony e Vinícius. O mais velho, Arthur nasceu de 37+5 semanas e apesar de ser considerado prematuro, o processo foi mais tranquilo, segundo Daiala.

Os desafios vieram no nascimento de Anthony que chegou ao mundo com 32 semanas de gestação. Segundo a mãe, ele nasceu de parto normal e não deu tempo nem de medir sua pressão. “Eu fiquei desesperada, porque ele era ainda muito novo, me mostraram seu rostinho rapidamente e levaram para a UTI, nem deu tempo de o pai ver”, conta. “Ele precisou ficar no berço quente para não perder o calor do corpo, mas não demorou para estar comigo no quarto”.

Eles ficaram internados por mais 5 dias para que Anthony pudesse tomar banho de luz e o pai fez o método canguru nesse mesmo período, porque o corpo do homem geralmente é mais quente.

Quando soube da gravidez do terceiro filho, o Vinícius, ela já estava preparada para ser mãe de outro prematuro. Ele também nasceu de 32 semanas. A médica até tentou interná-la para tentar segurar o parto por mais um tempo, mas ela sabia que o filho nasceria naquele dia.

Ela fez o restante de exames que precisavam ser feitos, mas já sentia as contrações a cada dez minutos e mesmo tomando medicamentos para conter as contrações, Daiala teve um sangramento muito forte e sentiu muita dor que não a deixava nem se mexer. “A enfermeira tentou escutar o coração do bebês, mas não conseguiu, foi então que eu entrei em pânico. Quando a médica chegou as minhas contrações começaram a aumentar e eu pedia para deixar ele nascer e os médicos tentando segurar, dor e preocupação tomaram conta de mim”, lembra.

Quando teve a troca de turno a médica pediu para levá-los para o centro cirúrgico e Vinícius nasceu. “Ele estava roxinho, mais uma vez eu vi o rosto do meu filho rapidamente e correram com ele para a UTI, lá ele ficou 15 dias”, conta. Para ela foi terrível voltar para casa sem o filho. “Contava as horas para poder voltar para o hospital, tive mastite, foram dias bem difíceis”.

E você acha que acabou?

Quando finalmente eles voltaram para casa, outro desafio, Vinícius chorava 24h sem parar. Correndo de um médico para outro até que um pediatra solicitou uma série de exames e descobriu que ele tinha pedra na vesícula, um caso raro entre bebês. “Graças a Deus não precisou de cirurgia, o corpo expeliu, agora fazemos apenas acompanhamento”.

Por ter vivido os dois primeiros partos prematuros, Daiala disse que tinha medo de engravidar novamente e já estava decidida a não ter mais filhos. “Quando foi fazer o exame para colocar o DIU descobri que estava grávida, sai da sala de ultrassom chorando, porque eu saberia que seria difícil”.

De qualquer forma, ela acredita que as mulheres são capazes de coisas incríveis. “Ser mãe de UTI não é fácil, é doloroso, mas ao mesmo tempo nos torna mais forte e nos faz acreditar no impossível, porque olho para trás e agradeço a Deus pela vida deles, por estarem vivos e saudáveis”, afirma.

Dia Mundial da Prematuridade
No dia 17 de novembro, é celebrado o Dia Mundial da Prematuridade, data escolhida pelo significado especial para Jürgen Popp, um dos fundadores da EFCNI (European Foundation for the Care of Newborn Infants), parceira da ONG Prematuridade.com. Após a morte de seus trigêmeos prematuros, em dezembro de 2006, ele tornou-se pai de uma filha nascida em 17 de novembro de 2008. Ao mesmo tempo, o March of Dimes, organização de caridade americana para prematuros e recém-nascidos teve uma ideia semelhante e lançou um Dia da Consciência para a Prematuridade, em 17 de novembro, nos EUA.

O roxo simboliza sensibilidade e individualidade, características que são muito peculiares aos bebês prematuros. Além disso, o roxo também significa transmutação e mudança, ou seja, a arte de transformar algo em outra forma ou substância, assim como no desenvolvimento de um bebê prematuro.

Todo ano nascem em torno de 340 mil bebês prematuros no Brasil. Muitos deles não sobrevivem ou ficam com sequelas em função do nascimento antecipado.

Autor Kadija Rodrigues

Editora do Portal Mães de Jundiaí, mãe do Raul

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