Apraxia: distúrbio motor que afeta a produção da fala

Desde o nascimento do bebê as pessoas em sua volta esperam, ansiosamente, para suas conquistas, sejam elas qual for. O primeiro sorriso, o reconhecimento das mãos e dos pezinhos, mais adiante as tentativas de engatinhar, andar e claro, as primeiras palavrinhas.

Esse também foi o processo na casa da advogada Alcione Zorzi, 39 anos. Até ver seu filho caçula, Davi, completar 2 anos e 9 meses e não conseguir falar absolutamente nada, mesmo entendendo tudo ao seu redor. Pesquisando na internet ela viu que ele se enquadrava nos requisitos de um distúrbio motor que afeta o planejamento e a produção do som da fala que leva o nome de Apraxia.“Entrei em contato com a fonoaudióloga que cuida da minha filha mais velha e comentei, desde então, começamos o diagnóstico com essa profissional e uma neuropediatra, que, após um mês de investigação, chegaram na confirmação do distúrbio e então reiniciamos o tratamento específico”, conta.

A fonoaudióloga especialista em AFI, Luciana Nakagawa Soyama explica que a Apraxia é um distúrbio motor que afeta o planejamento e a produção do som da fala, ou seja, há um déficit no planejamento e /ou na programação motora que levam a erros na produção da fala e prosódia, na ausência de déficits neuromusculares (ex.: reflexos anormais, tônus alterados).

Segundo ela, pode ser idiopática (sem causas aparentes) ou pode ocorrer em associação com outras condições como TEA, síndromes genéticas entre outros. O termo utilizado atualmente no Brasil é Apraxia de Fala na Infância (AFI) – (CAS, Childhood Apraxia of Speech), definida e padronizada pela Associação Americana de Fonoaudiólogos (ASHA), desde 2007.  Podem variar de leve, moderado à severo. É uma alteração funcional e que nem sempre é detectada em exames para o estudo do cérebro (como ressonância e tomografia).

“Geralmente a criança parece compreender tudo, mas não consegue se expressar verbalmente. Pode apresentar pobre repertório de sons (vogais e consoantes) e, quanto mais extensa a palavra, maior a dificuldade da produção. Não consegue imitar palavras e frases. A prosódia da fala é diferente. Pode ‘perder’ palavras ou sons que já conseguia falar, ou seja , era capaz por exemplo de falar água, mas nunca mais conseguiu falar a palavra novamente”, explica a profissional.

Pela ASHA, os três principais sinais são erros inconsistentes de vogais e consoantes; quebra da co-articulação e prosódia inapropriada.

Luciana explica que os primeiros sinais podem aparecer já no primeiro ano de vida, período em que a criança pode apresentar vocalizações e balbucios diminuídos, pode ter dificuldade de alimentação (manter a coordenação de movimentos para sugar/respirar/deglutir). As primeiras palavras aparecem mais tardias (após 14 meses) ou não aparecem. Pode não conseguir falar “mamãe” e/ou “papai”.

“Muitas vezes, não é possível diagnosticar uma criança com menos de 2 anos de idade, porque, ainda não conseguirá compreender as instruções específicas bem como porque nesta idade, a criança está aprendendo os sons da fala. Entre 2 e 3 anos, podemos suspeitar do quadro e indicar alguns meses de terapia diagnóstica para a confirmação do diagnóstico. A intervenção precoce é muito importante para se obter resultados mais significativos”, afirma.

Para Alcione, ter o diagnóstico foi uma mistura de sentimentos: libertador por saber o que seu filho tinha em relação a fala e muito medo que ele não conseguisse se comunicar. “O desespero é inevitável, pois vivemos em uma sociedade que, infelizmente, não está preparada para aceitar o diferente e incluir”, lamenta.

O tratamento
A especialista explica que se os pais desconfiarem que o filho possa ter esse distúrbio o ideal é procurar um fonoaudiólogo com experiência em AFI, bem como neuropediatra e muitas vezes são necessários acompanhamento com terapeuta ocupacional.

Geralmente as sessões de fonoaudiologia precisam ser em alta frequência (3 a 4 vezes por semana). Uso de pistas multissensoriais (visuais, auditivas, cognitivas, proprioceptivas-cinésticas). Métodos como o PROMPT e o DTTC são recomendados. O uso dos feedbacks são essenciais. Para crianças minimamente verbais, o uso de meios alternativos ou complementares de comunicação devem ser considerados.

Hoje, Davi está com 4 anos e Alcione afirma o quanto as terapias fazem a diferença, assim como as estimulações que a família faz em casa, aliás, a estimulação tem que ser constante, pois uma criança que não é tratada corretamente pode ter grandes prejuízos. “Assim como as terapias, a escola também tem ajudado muito no tratamento, vocês não imaginam a alegria que senti no meu coração quando ouvi meu filho dizer o seu nome pela primeira vez, tive muito orgulho”, afirma a mãe. (vídeo abaixo).

Luciana afirma que a intervenção precoce é sempre recomendada, pois quanto antes se iniciar o tratamento melhores serão os resultados. O tratamento é de longo prazo e irá depender muito do grau de severidade, adesão ao tratamento pela criança e apoio dados pelos pais e idade da criança (quanto mais cedo o diagnóstico melhor)

“A Apraxia de fala na infância é uma alteração funcional, é um distúrbio instável, dinâmico, e não deixa, necessariamente sequelas, mas pode persistir até a idade adulta e se não tratada corretamente, a criança pode ter prejuízos importantes na fala, comunicação, interação sócio-emocionais, pode implicar em dificuldades escolares, na alfabetização, aprendizagem”, afirma.

Por isso, se suspeitar ou tiver dúvidas sobre o desenvolvimento da fala de seu filho, procure um fonoaudiólogo com experiência e conhecimento em linguagem infantil, mas mais ainda, que você e seu filho tenham empatia, e solicite uma avaliação.

“Nunca deixem de acreditar no sexto sentido, pois uma criança não deixa de falar, de se comunicar, de andar, engatinhar, porque ela tem preguiça. O ser humano tem a necessidade de se comunicar”, diz Alcione. E reforça: “Ensinem seus filhos a conviverem com crianças ‘atípicas’, ensinem que algumas crianças podem não falar, não responder de imediato a uma pergunta, mas elas têm vontade de brincar e fazer parte das brincadeiras, pois dói demais ver seu filho excluído, uma vez que ele entende tudo, só não consegue se expressar verbalmente”.

Hoje, 14 de maio, é o Dia da Conscientização sobre Apraxia da Fala na Infância.

Veja o dia em que Davi falou, pela primeira vez, o seu nome.

 

Autor Kadija Rodrigues

Editora do Portal Mães de Jundiaí, mãe do Raul

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