O que quero e o que preciso!

Ontem conversando com duas amigas percebi que muitas vezes nós, mães de crianças com deficiência, parecemos estar sempre correndo com nossos filhos para diminuir o atraso. Mas que atraso é este?

As terapias são tantas que às vezes nos perdemos na imensidão do que é prioritário. É um tal de faça isso em casa com ela e faça aquilo em casa com ela que me pego pensando que horas ela pode ser a minha filha, sem estímulo, sem deficiência, sem atraso, apenas minha filha.

De vez em quando tenho a sensação que minha vida sempre tem que ser guiada por uma terapeuta, que não sou capaz de viver sem elas para criar minha filha e esse sentimento cansa e me faz pequena.

Já tive muitos choros e já tive muitos cansaços até entender duas coisas distintas:

  1. O que eu quero;
  2. O que eu preciso.

Eu preciso das terapeutas, por isso, na minha opinião tenho as melhores. Podem não ser melhores para os outros, afinal estamos em um mundo que cada um é cada um, ainda bem, mas para mim são, claro, senão não estariam com a minha filha. Temos sempre que acreditar e valorizar os profissionais que nos atendem. Agora, o que eu quero mesmo é viver livre dessa pressão de atrasos. Não deixo de enxergar que ela tem muitos atrasos no desenvolvimento, mas hoje quando coloco a cabeça no travesseiro durmo tranquilamente porque estamos fazendo nosso melhor, que se ela ainda não fala perfeitamente ou não desfraldou totalmente é porque ainda não chegou a hora.

Porque uma coisa é fato, se eu como mãe sinto a pressão, imagine ela com esse tanto de terapias. Até onde ela tem energia para tentar novamente, até onde essa resiliência é saudável?

Acertar a dose é muito difícil: até onde devemos “correr atrás para diminuir esse atraso” e quando podemos apenas cuidar dessa autoestima e dessa infância?

Como mãe, prefiro cuidar da autoestima para que ela seja uma criança feliz e que viva a vida intensamente.

Não deixo de levá-la às terapias que são indicadas, porque mais uma vez, acredito nos profissionais que nos dão suporte, mas minha casa nunca virará um campo terapêutico.

Proporcionar vivências, provar novos sabores, conhecer novos lugares, conversar com novas pessoas… Vai me dizer que isso não tem ganhos? É certo dizer que em vez de levar ao parque eu poderia fazer alguma atividade direcionada? E depois, ela estará falando muito bem obrigada, mas o período de parque passou, voltaremos no tempo? Infelizmente não, tem coisa que nunca mais volta. Infância deixada de lado é infância perdida.

Então chego a conclusão que nessa nossa história não existe atraso, existe perdas. Ela sempre estará dentro do período certo do desenvolvimento dela, ela nunca estará como as crianças da classe, então para que corrermos atrás de algo? Ela tem uma deficiência que a faz ter mais dificuldades, que a faz ser mais lenta em uma série de coisas, mas que não a faz menos feliz, olha que incrível!

Se um dia a infelicidade acontecer não será por causa de sua deficiência….será por causa do seu meio e neste eu faço parte, por isso lutarei todos os dias para que nunca aconteça! Pensar em atraso nunca mais, o importante é vivermos o hoje como se fosse o melhor dia de nossas vidas!

 

“A receita é infalível: ocupe-se com que lhe causa encantamento e tudo a que chamamos de problemas fica pequeno, perto do fascínio daquilo que chamamos de Vida”. – Autor desconhecido

Autor Mariângela Castilho

mãe da Maria Luiza, Idealizadora do Projeto Elas Também Podem e Consultora de Inclusão no Colégio Ápice Eleva

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