Dia do Irmão

Sentei para escrever o texto do mês um pouco sem ideia do que conversar, minha mente vagou um pouco aos afazeres do dia seguinte e no que eu prepararia para o jantar, de repente me pego olhando para a Maria Luiza ali na sala brincando sozinha de casinha e lembro que hoje é dia cinco de setembro, dia do irmão…e ela ali, estando no seu mundo mágico a brincar sozinha.

Confesso que uma tristeza bateu. Na minha infância quando eu brincava sozinha era por pura opção, com dois irmãos e uma irmã, era sempre casa cheia de imaginação e companhia.

Casei com o sonho de ter três filhos, não seria tão corajosa como minha mãe de ter quatro, mas a casa cheia ainda estava em meus planos.

A primeira chegada foi mágica, cheia de surpresas, de altos e baixos antes da grande chegada… mas ela chegou e tomou todo o espaço vazio que tinha em meu coração. Saudável, alegre, carinhosa e muito esperta ela veio para ficar!

A felicidade já era tão grande que partimos para a continuação do plano, ainda faltavam dois. O segundo veio, mas não ficou… o terceiro veio, mas partiu…e ainda com a coragem de minha mãe, veio o quarto, mas este também se foi.

A pergunta é inevitável: E você vai ficar só nela? Minha mente vaga por segundos e sinto meus três em meu coração antes da resposta: Não sei, tenho um Condutor lá em cima que tem planos.

Algumas concordam e seguem suas vidas, outras ainda querem tentar mais um pouquinho: Mas seria tão importante para a Maria Luiza um irmão ou uma irmã…e é exatamente neste ponto que eu quero chegar!

Sim, um irmão ou uma irmã seria muito importante na vida da Maria Luiza, mas eles seriam importantes na vida de qualquer um, não só pelas deficiências. Não sei se seria justo ter outro filho dando a ele a responsabilidade de tomar nosso lugar quando não estivemos mais aqui, ou que ele proteja o irmão quando não estivermos por perto. Ter irmão não é garantia de nada se pensarmos que o futuro de cada pessoa é desconhecido.

Quantas famílias conhecemos que os irmãos não se entendem ou talvez nem conversem? Quantas famílias vemos brigar na hora da partilha da herança dos pais? É, nesse mundão encontramos de tudo.

Hoje em dia, já encontramos bons estudos voltados aos irmãos de crianças com deficiência ou projetos para que eles tenham voz. Não é fácil participar desta logística de tantos compromissos (terapias) que o irmão precisa ter, é abrir mão muitas vezes da atenção dos pais pelo irmão. Para quem leu ou assistiu O Extraordinário, pode ter uma ideia, para quem ainda não o fez, recomendo de olhos fechados, só tenha um lenço em mãos em caso de uma eventual necessidade (quero dizer choro mesmo). Outro que podemos refletir bem sobre esta realidade é a série Atypical do Netflix. Também não considero o problema de todos os problemas, vejo muitas famílias muito bem resolvidas ao mesmo tempo que vejo famílias sem crianças com deficiência enfrentando um turbilhão de problemas emocionais. São apenas fatos e cada família monta o seu manual.

Já ouvi também em uma palestra que todos pais de criança com deficiência tem o direito de ter outro filho sem deficiência, mesmo que seja por tratamentos alternativos. Fico a pensar até hoje qual lei este senhor se referia. Isso não é estatuto, meu senhor, isso chama-se vida! Sou totalmente realizada como mãe, como qualquer mãe, não mais e nem menos daquela que teve uma criança típica (às vezes até acho que um pouquinho mais, mas daí vejo que estou exagerando e vou fazer outra coisa rs). Toda e qualquer mãe enfrenta seus dragões diárias para o melhor de nossos filhos, independente de sua condições e da quantidade de filhos.

Aí você me pergunta se eu desisti? Talvez tenha desistido de alguns caminhos tradicionais, mas lembram-se daquele meu Condutor que citei antes? Quem sabe disso é só Ele.

Por enquanto vamos experimentando outro modelo de família que nem eu e nem meu marido tínhamos vivenciado na infância (ele tem uma irmã também), um modelo diferente dentro de tantas diferenças e igual a tantos perfis de famílias desta geração: o de filha única!

Achei que tivesse finalizado o texto, mas volto no dia seguinte para acrescentar este parágrafo: Coincidentemente quando fechei meu computador ela veio até mim e disse: Mamãe, vem brincar? E com o coração cheio de alegria fui desempenhar meu melhor papel: o de mãe que brinca ou até substituir a irmã que ainda não veio… alguém viu nisso um problema? Eu só vi felicidade!

O dia de comemoração já passou, mesmo assim deixo aqui meus parabéns a todos os irmãos…em especial àqueles que abrem mão muitas vezes da atenção dos pais por amor ao próximo!!

Autor Mariângela Castilho

mãe da Maria Luiza, Idealizadora do Projeto Elas Também Podem e Consultora de Inclusão no Colégio Ápice Eleva

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