Por que homens não conversam sobre paternidade?

Acredito que muitas pessoas reconhecerão este aspecto inquietante das festas de fim de ano: os diálogos constrangedores que elas proporcionam. Há sempre aquele parente, aquele amigo de infância com quem você já não tem a mesma afinidade ou aquele colega de trabalho que fará a pergunta que deixará todos desconfortáveis, a piada que você preferiria não ter ouvido ou que compartilhará aquela opinião política que transformará a mesa em uma praça de guerra.

E há ainda mais uma situação que, embora eu não tenha acumulado muitos finais de ano como marido e pai, consegui identificar: quando os demais homens presentes tentam levar você para a irmandade da masculinidade estereotipada. Não tente resistir, concorde que as esposas não param de perturbar com cobranças ou seja considerado um traidor. Não diga que você se levanta de noite quando o bebê chora para não deixar os “homens que precisam dormir porque trabalham” contra a parede. Ou diga e seja fulminado por olhares de reprovação. Mas, principalmente, não fale de sentimentos, abra mais uma cerveja como um homem deve fazer.

Talvez você tenha alguns amigos mais próximos com os quais consiga falar sobre suas questões emocionais sem ouvir um “deixa de frescura”, mas imagino que a grande maioria dos homens tenha dificuldade para encontrar esse espaço. Crescemos em uma cultura que tira dos homens oportunidades de aprender a lidar com seu mundo interior. E por isso pode ser muito complicado descobrir como lidar com a revolução pessoal causada pela paternidade sem apoio de outras pessoas.

 

Papais do mundo, uni-vos
A dificuldade de falar sobre temas que fujam da masculinidade estereotipada foi abordada pelo psicólogo Frederico Mattos neste texto. Nele, o especialista discorre sobre o que chamou de “solidão masculina”, o sentir-se só por não encontrar “espaços para discussões maduras e sérias sobre os dramas masculinos”. Imagino quantos pais não se sentem solitários por não encontrar um espaço onde possam expor suas
angústias, medos e expectativas em relação à paternidade.

Algo muito comum entre mães, grupos de apoio para pais são ainda raros. Para muitos homens, o acesso a indicações de escolas ou de médicos, a informações sobre técnicas para fazer o bebê largar a chupeta ou mesmo sobre promoções de fraldas se dê por meio dos grupos de mães dos quais suas companheiras fazem parte.

A prática de discutir paternidade com maior profundidade é muito pouco difundida entre os homens e a tendência aparentemente repercute nas redes digitais. Não seria uma suposição muito equivocada relacionar essa falta de espaços ao fato de nós homens não sermos educados para a empatia. Não fomos treinados a olhar nem para nossos universos interiores nem para o interior de outras pessoas. Que dirá, então, discutir os sentimentos e emoções
que preenchem esses espaços. Temos muito o que aprender com a solidariedade que há entre as mães. E precisamos superar aquela coisa de que homem dirigindo não pede informação quando se perde.

 

Homens não choram, nem falam de saúde mental
Após alguma pesquisa, encontrei pouquíssimos grupos voltados especificamente para os papais. No entanto, encontrei, e posso recomendar, o podcast Tricô de Pais. Em especial, recomendo o episódio sobre saúde mental dos homens, do qual participa o Frederico Mattos que citei há alguns parágrafos.

Assustadoramente, chegamos a 2018 ainda carregando muito preconceito em relação a quem busca algum profissional de saúde mental. É algo considerado como coisa de gente fraca, maluca ou até preguiçosa. E no caso dos homens, esse preconceito é ainda pior. Nosso machismo diz que o homem não pode fraquejar, deve ser forte e resiliente, inquebrável.

Como o contato com suas emoções não é permitido ao homem, acabamos tendo pais de certo modo analfabetos em relação a como lidar com uma gama mais ampla de sentimentos. E como pais que não cuidam de sua saúde mental e emocional poderão estar bem para cuidar de sua família? A imagem do macho-provedor inabalável é, na verdade, um risco para a saúde mental do homem e, consequentemente, um risco para a saúde da relação familiar.

Encerramos o texto com uma dica: se você já entendeu como é importante que o homem cuide de sua saúde mental, mas não tem acesso a um especialista, procure o atendimento gratuito oferecido pela maioria das faculdades de psicologia. O trabalho é feito por estudantes, mas é sempre monitorado por professores e pode ser o primeiro passo para a superação do nosso analfabetismo emocional.

Autor Bernardo Menezes Vianna

pai da Maria, jornalista na Ideias e Palavras

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