Luto gestacional: Essa dor também merece respeito

Luciene entendeu que a dor do luto gestacional a preparava para a chegada de Isabela (Imagem Arquivo Pessoal)

A funcionária pública Luciene Gomes, 31 anos, enfrentou uma das piores dores que uma mulher pode sentir. Em 2013, com oito semanas de gestação, ela recebeu a notícia de que seu bebê não estava mais se desenvolvendo. Apesar de ouvir dos médicos que a criança tinha uma má formação na cabeça e que as chances de sobreviver eram mínimas, ela sofreu para entender e aceitar a perda.

Situação considerada totalmente compreensível pela psicóloga materno-infantil Raquel Benazzi. Segundo a especialista, o aborto espontâneo é algo natural do corpo da grávida, e é um momento em que a mãe precisa ser compreendida e respeitada.

“Apesar de ter esse nome, não podemos olhar para ele como algo de escolha da mulher. Muitas vezes a gravidez foi planejada, o que traz mais sofrimento a esse momento. Desde a descoberta da gravidez, o corpo e a mulher começam a mudar e estruturar o papel materno. Quando ocorre o aborto essa estrutura é interrompida”, explica.

E estimativas mostram que essa dura realidade é até um tanto comum. Entre 15 e 20% de todas as gestações são interrompidas de forma espontânea nos três primeiros meses da gravidez. Alterações cromossômicas ou más-formações no embrião impedem que ele se desenvolva de maneira saudável.

Por isso é muito importante que pessoas mais próximas acolham, ouçam e entendam os sentimentos dessa mãe, de acordo com Raquel. “É um período em que a mulher precisa vivenciar o luto, independentemente do tempo da gravidez. Não deve jamais ser julgada e afirmar que outra gravidez irá substituir essa. E claro se perceber uma tristeza profunda, deve se procurar um profissional”.

Exatamente um ano após descobrir a primeira gravidez, Luciene soube que esperava outro bebê. Ela conta que teve muita dificuldade em lidar com as lembranças do que aconteceu no ano anterior, uma vez que se tornaram mais fortes pela coincidência das datas.

Mas tudo fez sentido após a funcionária pública receber o diagnóstico de Síndrome de Down da sua segunda bebê, a Isabela. “Foi neste momento que eu entendi tudo. Eu nunca fiquei triste ou frustrada por isso, pois tenho certeza que fui preparada por um anjo a amar sem limites”, conta e reforça: “Aquele bebezinho me ensinou muito e tenho certeza que lá no fundo, ele me preparou, para não sofrer com a Isa por coisas pequenas”.

Hoje Luciene diz que não sofre mais, ao contrário, é grata a Deus por ter enviado um anjo que a preparou para amar a Isabela e lutar por ela.

A aceitação da perda também foi um grande desafio para a dona de casa Daniela Mutinelli, 33. Ela descobriu a ICC (Incompetência Istmo Cervical) às 20 semanas de sua primeira gestação, quando teve um pequeno sangramento. Quando chegou ao hospital estava com a bolsa no canal vaginal. “Fiquei internada por uma semana, mas comecei a ter contrações e meu Dudu nasceu com 355grs e 21 semanas”, afirma.

Daniela conta que o processo de aceitação não foi fácil, afinal era uma gravidez esperada, com anos de tentativas, incluindo inseminação artificial e fertilização in vitro. “De repente engravidei naturalmente e aconteceu isso. Fiquei revoltada, não conseguia entender por que Deus havia feito isso comigo, só chorava, de desespero mesmo. Mas após um tempinho, como sou espírita e sempre acreditei que tudo nessa vida tem uma razão, comecei a aceitar que essa era a missão do meu filho, ou minha, que precisava passar por isso. E mesmo não sabendo os motivos, fui aceitando e me acalmando. Sinto até uma gratidão por ele ter me escolhido pra passar por isso junto dele”.

Após o período solicitado pelo médico, Daniela engravidou de forma natural novamente. “Nessa gestação fiz a cerclagem, coloquei o pessário (um anel de silicone que ajuda a manter o colo do útero fechado), fiz repouso e veio minha Beatriz”.

 

E o pai?

A mulher sente muito o luto, pelo vínculo ao carregar o bebê no ventre, mas não se deve afirmar que ela sofre mais. O lado paterno também merece cuidados neste momento da perda.

“Os pais têm mais dificuldade em lidar com os sentimentos e muitas vezes eles se mantêm fortes para ajudarem a esposa, o que intensifica o seu papel e seu sofrimento”, afirma a especialista. Segundo ela, o pai deve ser observado e não tem que ser o pilar da família, ele também sofre. “E cuidar desses sentimentos é a melhor forma, em vez de esconder e tratar o assunto como tabu”, ressalta Benazzi.

Esses cuidados também devem ser estendidos para famílias que já têm filhos mais velhos. Segundo a psicóloga, eles precisam saber o que está acontecendo, mas é preciso que se respeite o limite de cada criança. “Permita que ela pergunte e responda o que ela quer saber. Muitas vezes o adulto dá mais informações do que a criança suporta”, afirma. Outra dica é escolher uma figura de confiança para dar a notícia para esta criança.

 

Como reagir?

Se você conhece alguém que está passando por esse processo de luto materno, a psicóloga Raquel Bertazzi separou algumas dicas para ajudar essa família:

– Se você não sabe o que falar, acolha;

– Abrace, escute, permita o choro e o silêncio;

– Não exija da mulher e da família força, é um processo de luto, perda e deve ser vivenciado;

– Força não é sinônimo de superação ou aceitação;

– Não trate como se o filho fosse algo substituível, não é e nunca será.

Autor Livia Haddad

Editora do Portal Mães de Jundiaí, mãe da Beatriz

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